quarta-feira, 7 de julho de 2010

Porque somos assim?

Porque será tão difícil seguir o princípio básico de viver e deixar viver? Porque será que necessitamos, constantemente, de provar que os outros estão errados e nós estamos certos? De onde nos vem esse inquietante desejo de superarmos os que nos rodeiam, numa competição infindável e indiscernível?
Muitos dirão que tem sido sempre assim, desde o princípio dos tempos mas essa é fraca e obscura razão: não explica o que motiva os seres humanos a ter tal conduta.
A constante insatisfação da humanidade estará porventura na base dessa luta que travamos com o mundo exterior sem nos apercebermos de que a causa primária dessa insatisfação origina nos nossos íntimos. Então, seria bem mais proveitoso para nós próprios e para aqueles, vítimas dos nossos ataques, se empregássemos as energias desviadas no sentido errado, para aprofundarmos o conhecimento do nosso mundo interior. Muitas vantagens adviriam desse exercício de introspecção. Teríamos, por certo, menos tempo para dissecarmos as acções dos nossos semelhantes, como se fossemos cirurgiões armados de bisturis. E não nos ficamos por aí, não senhor. Somos também polícias e juízes neste jogo de descobrir nos outros erros, comportamentos menos dignos e pecaminosos. Criticamos e condenamos sem dó nem piedade. Mas isso já vem de trás, não é verdade? Adão ter-se-ia queixado de Eva, censurando a decisão dela por ter sucumbido ao desejo e tentação. Eva, por seu lado, teria provavelmente censurado Adão por este não ter mostrado empatia e solidariedade.
Sem nos darmos conta, aquilo que mais criticamos nos outros é afinal o que mais detestamos nas nossas personalidades e que tentamos encobrir, até de nós mesmos. Se tivéssemos a coragem de nos “vermos” tal como somos, não teríamos razões para incriminar os demais.
Qual seria o tolo que atiraria pedras à sua própria casa? Assim como é mais fácil atirar as pedras às casas dos vizinhos, assim também é quanto às frustrações que sentimos. Em vez de as analisarmos e tentarmos dar-lhes solução, preferimos livrarmo-nos delas, usando-as como armas contra os outros. Que engano! Em vez de nos livrarmos delas, acumulamos ainda mais.
A noção de Viver sofreria uma mudança se passasse a ter como centro o indivíduo que se aceita a si próprio sem que para isso tenha de rivalizar com os demais, numa ânsia insuperável de supremacia.
É claro que haverá aqueles que acharão isso improvável e utópico; outros protestarão contra a falta de colorido e sabor numa vida assim vivida. Haverá aqueles que irão contrapor tal ideia como o têm feito incessantemente, desconhecedores de outra forma de agir. O hábito tende a perdurar. A mudança, seja ela qual for, apresenta obstáculos e barreiras para as mentes menos intrépidas. Que ironia! Haverá maior intrepidez do que o vicioso e pernicioso ataque a que se dedicam? Para isso não lhes falta a ousadia!
Esquecemo-nos da ambivalência da vida e de que acções provocam reacções. Tudo é, no fim de contas, efémero: um dia, seremos carrascos; outro dia, passaremos a vítimas.

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